Thursday, May 26, 2005

Saudades

Ontem, dia 25, foi um dia triste para mim. Se estivesse vivo meu pai teria feito aniversário ontem.
Ainda não fez um ano que ele partiu e é ainda muito difícil lidar com algumas situações.
Acho que o mais difícil do dia de ontem foi lembrar que este foi um dos dois últimos pedidos de meu pai: passar o dia do aniversário em casa, junto de sua família, de suas netas. O outro pedido foi que levássemos um padre em casa para lhe administrar a comunhão e ouvir sua confissão.
E, estranho, meu pai era avesso à festas. Fazia questão somente de ter a família reunida em poucas ocasiões como o Natal.
Lembro como se fosse hoje o dia 25 de Maio do ano passado: Ainda era uma das primeiras consultas a que ele ia fora do PSF aqui do bairro. Saiu de casa pela manhã, acompanhado de minha mãe e passou o dia inteiro no hospital. Enquanto isso, eu na hora do almoço, fiz seu bolo de aniversário e à tardinha, com a ajuda da Márcia, minha cunhada, terminei de confeitar o bolo e preparei alguns petiscos, aguardando pela chegada de meu pai. E, para minha surpresa, o que recebi foi um telefonema de minha mãe, perguntando o que devia fazer: deixar meu pai no hospital como o médico havia mandado ou atender seu pedido e trazê-lo para casa para comemorar o aniversário. Confesso que fiquei em dúvida no momento, que com saúde não se brinca. Mas meu coração já me dizia o que iria acontecer, e resolvi que era melhor deixar que meu pai passasse o resto do dia, ou melhor, da noite, em casa. E hoje sei que fiz a coisa certa. Me lembro de seu rosto, de sua expressão, de seu olhar, um pouco triste, um pouco resignado, um pouco feliz, um pouco vazio, um pouco agradecido.Misto de emoções.
Ele nunca ficava acordado com a gente em nossas comemorações, mesmo na de se aniversário. E naquele dia ele ficou, sentado como um menino no sofá da sala, esperando pela chegada das netas. E reclamava um pouco pela demora da neta que faltava, a Ana Carolina, dizendo que estava cansado e queria se deitar, mas antes queria ver todos os netos.
Acho que ele já sabia naquele momento que teria pouco tempo de vida. Muitas vezes, depois deste dia, ele me disse isso. Que estava somente esperando a hora.
E repito, hoje sei que fiz a coisa certa, permitindo que ele passasse seu aniversário em casa. De qualquer maneira, os problemas que ele tinha eram sérios demais e não faria diferença um dia a mais ou a menos no hospital. Na época eu não sabia disso e fiquei com medo de ter contribuído para que seu estado de saúde se agravasse e às vezes achava que tinha tomado a decisão errada. Com o passar do tempo e nas várias conversas com os médicos soube que não teria mesmo jeito.
E me lembro do último desejo que pude realizar para meu pai e me sinto bem pelo que fiz. Acho que, ao contrário, se tivesse dito para que minha mãe o deixasse no hospital, teria antecipado sua partida.
Gostaria, às vezes, de não ter que ser responsável por tomar certas decisões, mas na vida a gente não pode escolher só o que é bom. E tudo tem dois lados também...
Sei que ontem acordei e falei para mim mesma: hoje não vou ficar triste. Mas não teve jeito. Bateu saudade.
E o que é mais estranho, é que nunca tive uma relação tão estreita como meu pai. Não conversávamos muito, isso de bater papo, de contar de sua vida, de falar do que pensa e este tipo de coisa. Meu pai era uma pessoa difícil, muito difícil e só começamos a nos entender depois que fiquei adulta. Nunca encarei meu pai como um super homem, SÓ porque era meu pai. Sempre vi seus defeitos e erros, mas vi também seu lado mais humano e doce. Dizem que homem não chora, mas eu acho que só é homem de verdade aquele que não tem vergonha de mostrar suas lágrimas. E o homem que mais vi chorar na vida foi meu pai. Lágrimas não de tristeza, mas de emoção, quando você ia lhe dar um abraço de aniversário ou de dia dos pais, de natal. Lágrimas quando ele via uma reportagem triste na tv e dizia: Tá vendo, Nanda, olha o exemplo,aprenda alguma coisa. Lágrimas ao ver uma pessoa doente.
Lágrimas, lágrimas alegres de meu pai. E lágrimas que eu tento não derramar quando me lembro dele, quando percebo a ausência dele.
Feliz aniversário meu pai. Sinto saudades de você.

3 Comments:

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